O QUE ELES ESCONDEM

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O terrorismo financeiro contra a Grécia

Por Vicenç Navarro*

Estamos hoje a ver um ataque frontal do capital financeiro, hegemonizado pelo alemão, e veiculado, principalmente, através do Banco Central Europeu (BCE), contra o povo grego, ataque que tenta evitar qualquer assomo de rebeldia frente às políticas de austeridade, que estão a destruir o bem-estar das classes populares de todos os países da Zona Euro e, muito particularmente, da Grécia, cujo governo Syriza foi o primeiro a dizer “JÁ BASTA” face ao que não há outra forma de lhe chamar senão terrorismo financeiro (ver o livro do Professor Juan Torres e eu, intitulado Los amos del mundo las armas del terrorismo financiero). Neste momento, há que entender o contexto político e histórico do que está a acontecer, começando pelas semelhanças existentes entre o ocorrido na Grécia, agora, e o que sucedeu em Espanha, em 1936.

Espanha 1936, Grécia 2015

Existem momentos na história da Europa em que a luta pela justiça e pela democracia num país é, também, a luta pela justiça e pela democracia para todos os países do continente europeu. A luta, mal chamada Guerra Civil, em Espanha (entre 1936 e 1939), foi exemplo disso. No território espanhol, um golpe militar, em nome das minorias que controlavam o país, teve lugar em 18 de Julho de 1936, com o apoio das tropas nazis alemãs e fascistas italianas, frente à grande maioria das classes poopulares dos distintos povos e nações de Espanha, que resistiram ao golpe heroicamente, durante mais de três anos, com escassa ajuda militar dos países governados por partidos que se autodefiniam como democratas, mostrando uma grande traição aos princípios democráticos, que diziam defender.

A derrota das forças democráticas espanholas significou, também, a derrota da democracia na Europa Ocidental, com a vitória do nazismo e do fascismo em muitos países daquela Europa, iniciando-se a 2ª Guerra Mundial. E, em Espanha, aquela vitória significou o início de um regime ditatorial, que se caracterizou por uma enorme brutalidade (por cada assassinato político cometido por Mussolini, o ditador Franco cometeu 10.000, segundo o maior especialista em fascismo europeu, o Professor Malefakis, da Universidade de Columbia, na cidade de Nova Iorque) e que impôs um enorme atraso económico, político, social e cultural, em Espanha. Em 1936, Espanha e Itália tinham um nível de desenvolvimento económico semelhante. Em, 1978, data em que terminou aquele horrível regime ditatorial, o PIB per capita espanhol era apenas 62% do italiano. Este foi o custo económico daquele regime.

O que se está a passar na Grécia?

Salvo as diferenças que existem em cada facto histórico, o certo é que, na Grécia, temos assistido a uma situação semelhante, em que a luta pela justiça social e pela democracia naquele país é a luta pela justiça social e pela democracia em todos os países da Europa Ocidental. A preservação da justiça  social e da democracia, nos países da União Europeia, está em jogo, hoje, naquele país A sua derrota limitará enormemente, até anulá-las, tanto uma como outra, completando um processo iniciado há anos com a construção de um sistema de governo da Zona Euro, dominado pelo capital financeiro (hegemonizado pelo alemão), que, numa coligação das minorias governantes em cada país, têm estado a agredir o povo grego, destruindo 25% da sua riqueza nacional, o PIB, com o desmantelamento do seu já escasso Estado de Bem-estar, saqueando-o, roubando-lhe as suas propriedades e atacando as classes populares, muito particularmente, a sua classe trabalhadora, assalto que se tem realizado em colaboração com as elites corruptas e antidemocráticas que governaram a Grécia durante muitíssimos anos. Este ataque (e não há outra maneira de o definir) foi levado a cabo em aliança com as minorias que representam as classes dominantes dos países membros da União Europeia, sendo um aliado importante, nesta luta de classes que está a ter lugar a nível continental, as elites corruptas governantes do Estado espanhol, herdeiras das que dominaram, durante a ditadura fascista em Espanha.

O ramo político deste capital financeiro – os partidos conservadores e liberais, com a inestimável ajuda dos partidos socioliberais (que ainda têm a ousadia de auto-intitular-se social-democratas, depois de terem abandonado qualquer assomo de parecença com essa tradição política), estabeleceram uma ditadura na União Europeia, que tem imposto políticas sumamente impopulares, sem mandato popular (pois não estavam nos seus programas eleitorais), alcançando uma máxima implementação na Grécia. Hoje, a riqueza destruída naquele país, ainda pobre na Europa, é maior do que a riqueza destruída em França e na Alemanha durante a 1ª Guerra Mundial. Pensões e serviços públicos do Estado de Bem-estar estão a ser dizimados e os contratos colectivos, que defendem o mundo do trabalho, estão sendo enormemente debilitados, tudo como consequência das políticas neoliberais impostas pelo establishment neoliberal europeu, que controla o governo da União Europeia e da Zona Euro, com a assistência do Fundo Monetário Internacional. É um exemplo mais do terrorismo financeiro, tão prejudicial como o terrorismo militar, sendo muito mais extenso.

O objectivo político do establishment europeu é destruir qualquer rebelião contra esta ditadura financeira.

O que está a acontecer hoje é a tentativa de destruir o Syriza, o primeiro governo que, representando os interesses das classes populares, tentou parar tanta barbárie, rebelando-se contra as políticas públicas de austeridade, como lhe foi mandatado pelo povo grego. Como indiquei em artigos anteriores, o que a ditadura financeira quer não é expulsar a Grécia do euro, mas expulsar o Syriza do governo. E conta para isso com a classe política grega, corrupta até à medula, que controla a grande maioria dos meios de informação e persuasão daquele país, como também ocorre em Espanha.

A Grécia foi a maior vítima deste sistema terrorista, que está a ser aplicado à Zona Euro, causando o maior desastre social que se conhece, na Europa Ocidental, desde 1945. Daí a urgência e necessidade de ajudar as forças democráticas gregas, saindo para a rua, em frente às delegações da EU em Espanha, para mostrar o repúdio por este terrorismo. A Europa, que era o sonho da resistência antifascista durante os anos de clandestinidade, é agora um pesadelo, em consequência da deterioração tão evidente da democracia e da solidariedade, resultado do terrorismo financeiro, que domina, hoje, este continente.

O que está a acontecer neste momento?

Como era de esperar, a maioria dos meios de grande difusão em Espanha, altamente financiados pelo capital financeiro, responsabilizaram, pelo que está a acontecer, nada menos que a vítima daquele terrorismo. Frente a tanta mentira, é importante sublinhar

1. A enorme necessidade e urgência de responder a tanta falsidade, denunciando os meios de comunicação por falsearem a realidade, tanto do que tem vindo a acontecer, como do que aconteceu estes dias.

2. Que o Banco Central Europeu (BCE), que já mostrou a sua hostilidade para com o governo Syriza dois dias apenas depois de ter sido eleito, ameaçou destruir o sistema bancário grego, fechando toda a transferência para as suas entidades bancárias.

3. Que as exigências das Instituições Europeias (formadas, além do que se chamava a Troika – BCE, Comissão Europeia e FMI – pelo Eurogrupo), que incluem o pagamento da dívida, são um ataque frontal à sobrevivência da Grécia, pois é impossível pagar tal dívida e, ao mesmo tempo, reactivar a economia grega. Estas exigências chegaram a níveis escandalosos, como obrigar a uma redução das pensões públicas que signifique um corte equivalente a 1% do PIB, ao mesmo tempo que essas mesmas instituições se opõem ao pedido do Syriza em aumentar os impostos das classes mais ricas, vetando, também, um imposto sobre os grandes iates dessas classes.

4. Que a aplicação das políticas de austeridade causou um autêntico desastre social e económico, gerando, simultaneamente, um aumento, e não uma diminuição, da dívida pública, da qual só os bancos estrangeiros beneficiaram, muito particularmente os alemães e franceses, mas também os espanhóis.

5. Que quando estes bancos estiveram em risco de perder os seus enormes lucros, gerados pelos juros que a Grécia era forçada a pagar e não poderia pagar,, foram os governos da Eurozona que os resgataram, sob a falsa desculpa de que tentavam ajudar a Grécia.

6. Que foram as instituições do establishment europeu que, desde o primeiro dia do governo Syriza, mostraram uma enorme rigidez, ignorando os pedidos deste governo, que não eram nem mais nem menos do que o que haviam permitido ao Estado alemão quando a sua dívida estava a asfixiá-lo. Nestas condições, fez-se um perdão de 50% da dívida pública alemã e o pagamento da restante dívida ficou condicionado ao crescimento da economia alemã. As instituições do establishment europeu opuseram-se sistematicamente e, inclusive, negaram-se a considerar esta alternativa que o governo grego apontara.

7. Que o BCE, em aliança com a classe com a classe corrupta dominante, na Grécia, que controla a maioria dos meios de informação, está a tentar que, estes dias, antes do referendo do próximo fim-de-semana, haja um caos na situação financeira grega, para mobilizar a oposição ao governo Syriza, no referendo, com a intenção de conseguir o que sempre desejaram, expulsar o Syriza do governo.

8. Que a derrota do Syriza será uma derrota da luta contra a austeridade na Eurozona. O Syriza não tinha nenhuma outra alternativa senão fazer o que fez, pedindo a opinião do eleitorado grego, pois o Syriza foi escolhido para acabar com as políticas de austeridade. Se as instituições europeias não o deixam fazer o que prometeu, é uma demonstração mais do seu compromisso e coerência democráticos o facto de o Syriza considerar necessário pedir ao povo grego que decida se aceita as mudanças sugeridas pelo establishment europeu ou se deseja que o governo desobedeça a tais propostas.

9. Que tudo o que está a acontecer na Grécia afecta directamente as classes populares de todos os povos e nações de Espanha. Daí que o governo Rajoy tenha sido o maior aliado no Eurogrupo do Ministro das Finanças alemão – o falcão do Eurogrupo -, pois o governo espanhol foi dos que levaram a cabo tais políticas de austeridade com maior dureza, apresentando-se como modelo a seguir na Eurozona. O tsunami político ocorrido neste país nas últimas eleições municipais assustou o establishment neoliberal que governa a Eurozona, contribuindo para aumentar a sua rigidez negociadora, pois querem, por todos os meios, que o Syriza fracasse. Tentam, assim, assustar a população espanhola, cada vez mais enojada com as políticas neoliberais, promovidas pelo establishment espanhol (e, aqui, na Catalunha, pelo establishment catalão) e os seus meios de informação e persuasão. O medo é, uma vez mais, a estratégia seguida pela estrutura de poder, perante o número crescente de cidadãos que querem tomar o controlo do seu presente e futuro. Daí o enorme temor de que os cidadãos sejam conscientes de que se pode mudar as realidades que os oprimem, se se organizarem para isso. E isto é o que o establishment neoliberal europeu não pode permitir. Nem mais nem menos.
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* Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, na Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. Foi Catedrático de Economia Aplicada, na Universidade de Barcelona. É também professor de Políticas Públicas na The Johns Hopkins University (Baltimore, EUA). Dirige o Observatório Social de Espanha.

O texto original encontra-se em http://www.vnavarro.org/?p=12316 





domingo, 28 de junho de 2015

A desconhecida história sobre as negociações da dívida grega

Por Vicenç Navarro*

A grande maioria dos meios de informação e persuasão espanhóis apresentou as negociações que têm ocorrido entre as maiores instituições do sistema financeiro (tanto o Banco Central Europeu, BCE, como o Fundo Monetário Internacional, FMI) e políticos europeus (a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e o Eurogrupo, dominado pelo governo alemão), por um lado, e o governo Syriza, da Grécia, por outro, como um desencontro originado pela suposta rigidez e incompetência do último, apesar da paciência e comportamento racional dos primeiros. Em artigos anteriores questionei esta visão tão complacente e pouco crítica, reproduzida como parte do saber convencional (ver “La canallada que le están haciendo a Syriza en Grecia”, Público, 11.06.15) e promovida pelos gurus mediáticos e económicos, todos eles de nítida sensibilidade neoliberal. […]

A evidência científica abundante […] mostra o erro e/ou falácia da dita versão oficial. A última evidência desta falsidade acaba de ser dada por uma pessoa que conhece bem a trama política que esteve por detrás das políticas aprovadas pelas instituições do sistema financeiro e político europeu citado anteriormente e impostas à população grega. A referida pessoa á nada menos que Philippe Legrain, antigo assessor de quem foi Presidente da Comissão Europeia, o Sr. José Manuel Barroso, e que mostra essa evidência no testemunho apresentado na Comissão de Análise da Dívida Pública do Parlamento grego, apenas há uns dias, a 11 de Junho (ver também o artigo do economista James K. Galbraith, “Bad Faith. Whay Real Debt Relief Is Not On the Table for Greece”, Social Europe Journal, 18.06.15).

Segundo o Sr. Legrain, o problema teve início em Maio de 2010, quando o FMI percebeu que o Estado grego não poderia pagar nunca a sua dívida pública acumulada, o que causaria um problema grave para os bancos que a haviam comprado, consequência das suas grandes quantidades de dívida pública adquirida por esses bancos. A sua sobrevivência estava claramente ameaçada. Segundo o Sr. Legrain, o governo alemão tinha também consciência deste grande problema, como os demais elementos do sistema financeiro europeu, incluído o BCE. Todos sabiam que a bancarrota do Estado grego criaria um problema gravíssimo para os bancos que possuíam aquela dívida pública. E este problema podia converter-se num problema político maior. Os bancos estrangeiros (não gregos) que tinham mais dívida pública grega eram os franceses e os alemães (embora também estivessem os espanhóis), que haviam sido muito activos na compra da dívida grega, que gerava uns juros já então muito elevados.

Até aqui o primeiro capítulo do drama, um drama baseado na cumplicidade entre as instituições financeiras (FMI e BCE), por um lado, e as instituições políticas que governam os países do euro (a União Europeia e os principais governos da Eurozona), por outro, para salvar não a Grécia, mas os maiores bancos privados. Dois cidadãos franceses tiveram um papel-chave nesta trama. Um foi o Presidente do FMI, o Sr. Dominique Strauss-Khan, que pensava deixar o FMI para se apresentar às eleições francesas como candidato do Partido Socialista francês, para o cargo de Presidente do país. O outro francês era o Presidente do Banco Central Europeu, o Sr, Jean-Claude Trichet, consciente também das eleições francesas e do desastre que podia ocorrer se alguns dos maiores bancos franceses colapsassem. Preocupação semelhante havia na Alemanha, onde a comunidade bancária gozava (e continua a gozar) de uma enorme influência sobre o Estado Federal alemão. Daí que as instituições se mobilizassem para salvar, repito, não a Grécia, mas os bancos, como expôs claramente o Sr. Philippe Legrain. E foi assim que se deu o resgate à banca por parte do FMI, do BCE e dos maiores governos da Eurozona, comprando-lhe a dívida grega, que ela havia adquirido, plenamente conscientes (repito, plenamente conscientes) de que o Estado grego nunca poderia pagar a dita dívida. Era óbvio que todos os actores daquele drama conheciam isto, embora todos mantivessem um silêncio ensurdecedor, com o objectivo de ocultar uma situação que, se fosse conhecida, teria criado uma revolta popular nos países cujos governos estavam a salvar bancos privados com dinheiro público, comprando-lhes uma dívida pública que nunca poderia ser paga.

Porquê os cortes? O segundo capítulo do drama

O segundo capítulo do drama foi a intensidade e a brutalidade (não há outra forma de o dizer) dos cortes na despesa pública impostos à população grega, uns cortes sem precedente num país europeu em tempo de paz. Estes cortes tinham como objectivo conseguir que o Estado grego pagasse, primeiro aos bancos privados e, mais tarde, às instituições financeiras citadas anteriormente e aos Estados que tinham comprado aos bancos privados os seus títulos de dívida pública grega. Estes cortes foram impostos ao povo grego com pleno conhecimento do enorme dano que causariam, tanto ao bem-estar da população como ao estado da economia grega. O FMI havia estimado que tais cortes originariam uma descida de 5% do PIB. Na realidade, foi muito pior. O PIB grego desceu nada menos que 20% (alguns crêem que foi inclusive mais, uns 25%).

O que é importante assinalar é que outro dos maiores objectivos destes cortes foi o de determinarem uma descida da dívida pública grega, objectivo que (como era fácil de prever), não só não se alcançou como se conseguiu precisamente o contrário. A dívida pública aumentou de forma notável, alcançando 150% do PIB em 2013. Como indicou o Sr. Legrain, na sua declaração perante o Parlamento grego, nenhum desses “especialistas” do FMI foi penalizado pelos seus erros, erros que definiu como “estupidezes”, consequência da aceitação acrítica do dogma neoliberal.

Mas, outro objectivo da imposição das políticas de austeridade era o de castigar o povo grego (e anunciar que se castigaria, com a mesma força, qualquer outro país que não pagasse a dívida pública do seu Estado, como poderia acontecer em Espanha), escolhendo as intervenções que mais dano fariam às classes populares como, por exemplo, as pensões públicas, justificando-o com o argumento de que estas pensões eram exuberantes, argumento que foi, previsivelmente, promovido pelos maiores meios de informação […]. Na realidade, só 14% dos pensionistas recebem mais de 1050 euros por mês. A grande maioria recebe uma pensão abaixo de 665 euros, que é o limiar de pobreza naquele país.

É importante assinalar que nem o governo anterior ao do Syriza, nem as autoridades do FMI, do BCE, da Comissão Europeia ou dos governos alemão e francês jamais exploraram a possibilidade de reduzir o gasto militar, o que não deixa de ser surpreendente, pois a Grécia é o país que mais gasta com as suas forças armadas, na EU-15, depois do Reino Unido. A causa deste silêncio é fácil de ver. A França e a Alemanha eram os maiores fornecedores de armamento, realizando negócios suculentos com a venda de armas ao Exército grego, pagas com dívida pública. A Grécia tem 1.620 veículos blindados, um número mais alto do que o da Alemanha, França e Itália juntas. E, na sua maioria, comprados a estes países.
Foi o governo Syriza, não a Troika, quem propôs que se cortasse na despesa militar e não na das pensões – outro dado também ignorado pelos meios de informação. Na realidade, o governo Syriza foi o único que se atreveu a enfrentar-se com o Exército, tentado que desapareçam as tensões entre a Grécia e a Turquia, habilmente utilizadas pelas forças armadas para perpetuar os seus interesses. Como era previsível, o governo dos EUA e a NATO ajudaram ao rearmamento daquele país, pressionando, ao mesmo tempo,, para que a Grécia faça cortes no seu Estado de Bem-estar, pensões incluídas.

A necessária reestruturação da dívida

O quid da questão, que não apareceu nas negociações até que o Syriza, o partido governante na Grécia, o pôs em cima da mesa, foi a necessidade de reestruturar a dívida pública grega, pois esta dívida não poderia pagar-se nas condições aprovadas nas negociações entre a Troika e o governo grego anterior. Este tema era um tema tabu no início das negociações, embora tenha sido aceite no final. As instituições europeias e o FMI tinham plena consciência disso. Mas preferiam ignorá-lo e continuar a explorar o povo grego, para recuperar algo do dinheiro emprestado (com os respectivos juros).

O que os forçou a considerar a reestruturação da dívida foi o que estava a acontecer na Grécia, assim como em Espanha e em Portugal. As mobilizações populares de apoio ao governo Syriza (e que foram acompanhadas por mobilizações ao longo do território da EU) contra a austeridade, assim como os resultados das eleições municipais e autonómicas espanholas, alarmaram em grande medida essas organizações, pois a vitória do Podemos e outros partidos anti-austeridade, nas grandes cidades, preocupou-os grandemente (ver John Palmer, “We Must Stand With Greece For The Sake of Europe, Social Europe Journal, 22.06.15). E, em Portugal, o Partido Socialista, provável vencedor nas próximas eleições, prometeu anular todas as políticas de austeridade. Hoje, aquilo a que se tem vindo a chamar a nova esquerda está a expandir-se por todo o território europeu, uma nova esquerda que está contra esta Europa, querendo substituí-la por outra diferente. E, a actual está altamente preocupada. Daí a flexibilização da enorme rigidez que tinha mostrado até agora.

Não é necessário dizer que o governo Syriza teve que ceder em algumas exigências impostas pelo sistema financeiro e político, embora menores do que se lhe pedia no começo das negociações. Mas, a vitória do Syriza, a que se deve agradecer por ter iniciado a rebelião contra as medidas de austeridade, significou resistir à maioria das medidas que queriam impor à Grécia e levantar o problema da continuidade do pagamento da dívida pública nas condições actuais, que são inaceitáveis.

Hoje, na Europa, pôs-se em marcha um movimento de protesto contra as imposições do sistema financeiro e económico, que está a acontecer também em Espanha, como mostrou o tsunami político ocorrido nas últimas eleições municipais e autonómicas. Tudo isto mostra que, se as classes populares dos países se mobilizarem, podem ir conquistando espaços de liberdade, democracia e bem-estar que aquele sistema, através dos seus sistemas políticos, lhes têm ido reduzindo durante todos estes anos. Como dizia o meu amigo Eduardo Galeano, “muita gente pequena, em lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo”. Está a acontecer na Grécia e em Espanha, tendo-se iniciado um processo que, neste país, começou em 15-M, o qual não podem parar. E se não acreditam, esperem e verão.

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Texto original em  Publico.es

* Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, na Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. Foi Catedrático de Economia Aplicada, na Universidade de Barcelona



quarta-feira, 29 de abril de 2015

Discurso a esperar:
Se os gregos preferem às muitas dificuldades da dignidade a canga da renúncia e humilhação, nós, Syriza, entre a traição e o valor, negamo-nos à rendição.
Outros, ou os mesmos de sempre, que vendam o país e a Europa ao novo nazismo da ocupação.
Florianis morreu de pé e nós, na honra, negar-nos-emos a viver de joelhos.
Demitimo-nos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

No sábado, no domingo ou hoje, os meios de comunicação portugueses, tão preocupados com o cumprimento das promessas eleitorais do governo grego, podiam ter dado uma notícia, mais ou menos nestes termos:

O Parlamento grego acolhe jornadas históricas

Pela primeira vez, na Europa, foi constituída uma Comissão de Auditoria da Dívida com participação cidadã, sob os auspícios do Parlamento grego e da sua Presidente, Zoe Konstanstopoulou.

Mas, até ao momento (22 horas do dia 6 de Abril), nem uma linha. Nestes termos ou em quaisquer outros.
Façamos, então, nós de jornalistas:

Terminam hoje, no Parlamento grego, três jornadas sobre a dívida contraída pelos anteriores governos, com a apresentação de uma comissão, composta por nacionais e estrangeiros, que irá estabelecer a verdade sobre a dívida, determinando qual a parte ilegal, a ilegítima, a odiosa e a insustentável.
O Presidente da República da Grécia esteve presente e, num discurso, deu apoio a esta iniciativa.
O primeiro-ministro Alexis Tsipras, uma dezena de ministros, o chefe de gabinete de controlo do Orçamento e o chefe do serviço científico do Parlamento intervieram para dizer que punham os seus ministérios e departamentos à disposição da Comissão.
Foi acordado, igualmente, dar a conhecer os resultados desta auditoria ao Parlamento Europeu, aos parlamentos nacionais dos Estados integrantes da União Europeia, assim como à opinião pública internacional.

O que incomoda tanto nesta notícia, ao ponto de aplicarem o 9º princípio da propaganda de Goebbels: “Silenciar as questões sobre as quais não se tem argumentos e dissimular as notícias que favorecem o adversário, com a ajuda dos meios de comunicação”?

A resposta está nas seguintes definições, dadas por quem assumiu, a convite da Presidente do Parlamento grego, a coordenação científica da comissão – Eric Toussaint:

Dívida ilegal: contraída em violação do direito jurídico ou constitucional.

Dívida pública ilegítima: contraída pelos poderes públicos sem respeitar o interesse geral ou em seu prejuízo.

Dívida pública odiosa: originada em créditos concedidos a regimes autoritários ou impondo condições que violam os direitos sociais, económicos, culturais, civis ou políticos das populações afectadas pelo pagamento dessa dívida.

Dívida pública insustentável: dívida cuja devolução condena a população de um país ao empobrecimento, a uma degradação da saúde e da educação pública, ao aumento do desemprego, inclusive à subalimentação. Em resumo, uma dívida cujo pagamento implica o não respeito dos direitos humanos fundamentais.

É preciso que este “mau” exemplo não chegue aos nossos ouvidos e que a má-fé de apresentar Portugal como um caso de sucesso, diferente da Grécia, não seja visto como servilismo e traição ao país.


terça-feira, 24 de março de 2015


DISCURSO DE A. TSIPRAS NO COMITÉ CENTRAL DO SYRIZA

(…) tivemos que fazer frente a um eixo de forças políticas, animado, principalmente, pelos espanhóis e portugueses, que, por razões políticas evidentes, tentaram levar as negociações ao fracasso, correndo o risco de criar um incidente a nível internacional, com o objectivo de evitar perturbações políticas no interior dos seus países.

Camaradas,

Estamos no início de um longo e difícil combate, unidos não só pelo programa na base do qual o povo grego nos deu a sua confiança, mas também pelos princípios, valores fundamentais, deias e história da esquerda, pela nossa vontade de servir o povo e o país, pelas nossas relações francas e abertas com os trabalhadores, com aqueles que criam e inventam o futuro, pelo nosso apego à democracia e à justiça social, pela mobilização solidária do povo em torno de reivindicações amadurecidas, que dão o verdadeiro sentido à palavra progresso. E para que não haja confusão – faço questão de dizer, claramente, que: se nós representamos o novo, o “sem precedentes”, a esperança de mudança, isso não significa de modo nenhum, que tenhamos nascido ontem. Nós temos a antiguidade e a experiência do nosso partido, dos seus combates, da sua longa história.

Nós demos provas em períodos difíceis. E, hoje, aconteça o que acontecer, não vamos transigir com os nossos princípios e valores, nem recuar perante as dificuldades, traindo os nossos compromissos. Todos aqueles que esperarem isso terão uma desilusão. E, permitam-me recordar um conselho dos nossos mestres da emancipação social: o nosso combate político tem como ponto de partida princípios e valores imutáveis, mas não os esvaziará do seu conteúdo com uma obstinação cega. Nós estivemos sempre, e hoje ainda mais, obrigados a servir esses princípios e valores, elaborando uma táctica eficaz e inteligente, tendo em conta as relações de força, a disposição dos trabalhadores e do povo, a nossa margem de manobra em cada instante e em cada circunstância, os imperativos do nosso país. Este discernimento é a principal virtude numa situação como a de hoje, em que o SYRIZA está confrontado com um desafio sem precedentes: promover a mudança social e política, assumindo responsabilidades governamentais e não o de força reivindicativa de oposição.
Sabem o que isto significa, camaradas. Isto quer dizer que cada decisão, cada avaliação dos nossos actos, cada atitude, cada posição pública tem repercussões, não só na imagem actual da esquerda e seu futuro, não só sobre o conjunto das mobilizações progressistas, mas também sobre o presente e o futuro do nosso país e do nosso povo. É uma responsabilidade inédita, numa situação inteiramente nova. E eu estou certo de que somos capazes de assumir, com o apoio do nosso povo, esta responsabilidade.

Camaradas,

Há apenas um mês que o povo grego confiou ao SYRIZA um mandato governamental. Um mês que pôs em causa os códigos e velhos usos, os tabus políticos e ideológicos.
E, seria desejável não perder de vista o quadro de conjunto: o nosso país e o nosso governo encontraram-se no centro das preocupações europeias e mundiais. A Grécia deixou de ser considerada, desde os primeiros dias do novo governo, como um paria, que recebe ordens e aplica memorandos. O povo grego sente ter reencontrado a dignidade que lhe havia sido contestada e ultrajada.
A oposição à austeridade foi colocada no centro de todas as conversações. A crise humanitária, as pessoas que sofrem, que nós representamos nas conversações, não são já consideradas como simples números sem dimensão humana.
Nós encontrámos aliados no nosso combate de denúncia de uma crise auto-alimentada.
Nós reconquistámos o direito fundamental de que qualquer povo livre dispõe, o de discutir o seu futuro. O de decidir o seu futuro.
Nós pronunciámos não um, mas vários NÃO, em poucos dias, apesar das pressões que se tornaram, por vezes, tremendas, ao revestirem o carácter de chantagem. E, depois destas provações, chegamos a uma primeira conclusão política: hoje, a margem de liberdade de acção do nosso governo e do nosso país alargou-se. A libertação dos memorandos e das políticas desastrosas de austeridade não são já unicamente objectivo de um desejo exaltado, tal como foi expresso no resultado das urnas eleitorais. O nosso governo fez disso um acto político, afirmando a sua “legitimidade”, tanto a nível da opinião pública europeia como a nível das instituições europeias, quando o pôs em prática como objecto de negociação e de confrontação política. E os primeiros passos foram dados na via da libertação, com a qual o SYRIZA se comprometeu, unindo o nosso povo. Não é para nos congratularmos com os cumprimentos, nem para embelezar a dura realidade, falsificando a verdade, que nós fazemos esta constatação política.
Os subterfúgios não enganam o nosso povo e estão nos antípodas da cultura do nosso partido. Em contrapartida, esta constatação contribui para o esclarecimento da nossa conduta actual e futura, já que a melhoria da nossa posição e da situação geral permitir-nos-á reivindicar e aplicar uma outra política, que nós desejamos e prometemos.
São as circunstâncias difíceis? Sim. Grandes dificuldades se levantam diante de nós, pois, todos os dias, travamos novos combates e os maiores estão para vir. Mas, nós preparamo-nos, melhorando as nossas posições e a situação geral, com vista a atingir os nossos objectivos. Hoje, uma coisa é clara: a troika acabou. E tanto pior para aqueles que vêem a troika no lugar da Comissão Europeia ou das instituições europeias e internacionais, com as quais colaboramos e discutimos, evidentemente, pois pertencemos à zona euro. A troika, como mecanismo de supervisão e de dominação extra-institucional, arbitrária e sem legitimidade democrática está, formalmente, terminada. E esta missão foi levada a cabo pelo novo governo grego.
É, igualmente, claro que os memorandos pertencem ao passado. E isto está atestado com o fundo e a forma do acordo de empréstimo, visto não fazerem parte do texto adoptado e porque as medidas absurdas de austeridade já não figuram no nosso novo acordo. Este novo acordo, obtido após uma série de negociações difíceis, demonstra não só a perseverança dos dogmáticos da austeridade, mas também a determinação do nosso governo em acabar com os seus dogmas.
Mas, gostaria de sublinhar que, se o comportamento dos antigos governantes, pretendendo que continuamos na via deles, parece sobretudo cómico, ouvir discursos denunciadores, deformando a realidade, pronunciados por representantes de forças políticas de esquerda, levados por uma ingenuidade revolucionária, é, em contrapartida, triste e consternante.
Evidentemente, há e deve haver opiniões e julgamentos diferentes, discussões, reservas, discordâncias. Evidentemente, há e haverá ataques dos nossos adversários, na Europa e na Grécia. Mas, nós temos o dever para com o nosso povo, para com os povos da Europa que olham para nós atentamente com um sentimento de esperança, para com os movimentos que lutam pela inversão da austeridade, de revelar e defender a verdade. Então, quais são as verdades sobre as negociações que conduziram ao acordo-ponte?
Primeira verdade: nós chegámos a uma zona minada. as forças conservadoras mais agressivas da Europa, montaram-nos armadilhas, com a colaboração do governo Samaras, para provocar o nosso naufrágio, antes mesmo de governarmos. A intenção deles era a asfixia financeira e a queda do nosso governo, fazendo da vitória do SYRIZA um simples parênteses anti-memorandos.
Nós encontrámo-nos entalados em prazos premeditadamente muito curtos, com os cofres vazios e os bancos com pouca liquidez, com a herança dos compromissos do anterior governo e os acordos assinados com os seus protectores. Com o cutelo da asfixia financeira sobre o pescoço.
Eles tinham tudo preparado para nos levar ao naufrágio e ao país também. Mas não previram que a nossa vitória estaria muito próximo da maioria absoluta, que nós éramos capazes de formar governo rapidamente, sem recorrer a eles, que nós teríamos um apoio popular, sem precedentes, após as eleições, uma mobilização popular, de apoio ao nosso combate pela dignidade e pela soberania, com uma amplidão jamais vista desde o período da Resistência Nacional. Estes imprevistos anularam os seus desígnios e deram-nos esta margem de liberdade que nos permitiu evitar cair na armadilha deles.
Segunda verdade: antes das eleições, nós previmos as dificuldades, mas a avaliação teórica dos obstáculos não é suficiente. É preciso tempo e meios de governação para lhes fazer face. E nós tivemos que reagir antes mesmo da abertura do novo Parlamento: não tínhamos, pois, nenhuma outra arma senão a da nossa determinação em obedecer à vontade do povo tal como foi expressa nas urnas.
Terceira verdade: nós havíamos compreendido, com razão, que o receio de uma desestabilização geral, causada pela eventualidade de um fracasso, sobrepor-se-ia aos projectos orquestrados pelas forças conservadoras na Europa. Esse receio conduziu os grandes países, como a França, os Estados-Unidos, a China e outros, a uma posição mais positiva e responsável relativamente ao eixo da austeridade europeia, permitindo-nos promover os nossos argumentos. Contudo, tivemos que fazer frente a um eixo de forças políticas, animado, principalmente, pelos espanhóis e portugueses, que, por razões políticas evidentes, tentaram levar as negociações ao fracasso, correndo o risco de criar um incidente a nível internacional, com o objectivo de evitar perturbações políticas no interior dos seus países.
Que podemos, pois, concluir destas verdades? Houve um projecto, feito com a colaboração do primeiro-ministro grego que estava de saída, que não hesitou, no momento em que a Grécia iniciava negociações cruciais, em assinar resoluções, no quadro do Partido Popular Europeu, contra o seu próprio país. Esse projecto visava, e continua a visar, conduzir o governo à impotência ou à capitulação, antes de este mostrar provas das suas capacidades, antes de o paradigma grego ter repercussões na relação de forças políticas noutros países e, sobretudo, antes das eleições em Espanha. Isto é, criar pressões que nos conduzam a concessões inaceitáveis, sob a ameaça de asfixia financeira. Provocar a decepção a fim de nos privar do apoio popular. Utilizar a asfixia financeira para suscitar o descontentamento popular.
O objectivo era o de nos obrigar a participar numa formação governamental, de moralidade e legitimidade duvidosas, à semelhança do governo Papademos. Ou, então, derrubarem-nos, pondo fim às nossas reivindicações políticas, que tanto medo lhes fazem. Permitam-me juntar, ainda, um comentário: estes projectos, que visavam conduzir não só o SYRIZA, mas, também, a Grécia “ao leito de Procusto”(1), estavam baseados na sobrestimação cega da sua força, na incompreensão de dados concretos relativos à Grécia e à força da sua esquerda, na subestimação da nossa determinação e da nossa resiliência. Habituados a tratar com representantes servis do establishment dos memorandos, foram surpreendidos com o nosso NÃO, pronunciado na primeira reunião do Eurogrupo. E, muito irritados com o nosso segundo NÃO, na reunião seguinte, lançaram um ultimato. Mas, a nossa recusa em ceder à chantagem do ultimato mobilizou outras forças políticas europeias, que intervieram, defendendo a via da razão. O nosso povo também interveio eficazmente, manifestando-se e mobilizando-se. Foi suscitada uma vaga de apoio internacional, duma amplidão nunca vista desde a época da ditadura. E foi assim que chegámos a um compromisso, que nos permitiu recuperar o fôlego e evitar os piores cenários, que teriam consequências desastrosas, tanto para a Grécia como para a Europa.

Camaradas,

Permitam-me lembrar os objectivos principais dessa negociação: a dissociação do acordo de empréstimo dos memorandos. Um acordo-ponte intermédio, que nos dá tempo e espaço necessários para a negociação principal, a da dívida pública, e aplicar uma política de crescimento, fora do pântano da austeridade. Mas, não foi apenas a armadilha montada que nós conseguimos evitar. Nós obtivemos o fim formal e material do memorando. As exigência [da troika] ditadas por correio electrónico a Hardouvelis [ex-ministro das Finanças] desapareceram da mesa das negociações. E lembram-se do carácter e da dureza dessas medidas! Nós obtivemos o fim da troika. A partir de agora, não trataremos mais dos nossos assuntos com empregados, mas com a Comissão e as instituições que, pelo seu carácter propriamente político, são obrigadas, no quadro das suas funções e negociações, a adoptar critérios que não são exclusivamente tecnocráticos, mas também políticos. Obtivemos o fim dos excedentes irrealistas e inalcançáveis, que são o sinónimo e a base da austeridade e pudemos proteger os bancos. Por isso, os bancos continuaram abertos e a segurança do sistema financeiro, no seu conjunto, foi preservada.

Camaradas,

Nós não temos ilusões. Aliás, não temos direito a tê-las. “Nenhum descanso, nenhuma interrupção, nenhuma trégua”. Estamos apenas no começo.
Demos o primeiro passo, mas muitos outros problemas nos esperam: aumentar as receitas dos fundos públicos. Pôr de pé uma sociedade devastada por cinco anos de sevícias. Superar as pressões e as chantagens que ainda serão exercidas sobre o nosso governo. Estamos conscientes das nossas responsabilidades e o nosso combate será longo e constante. Mas estou optimista e creio que podemos ultrapassar todos os obstáculos, aproveitando o “fôlego” que obtivemos, para materializar rapidamente os nossos compromissos prioritários. Coordenando todas as nossas forças, com o apoio do povo, com a energia da nossa vontade e do nosso trabalho assíduo, nós podemos transformar o acordo de empréstimo em testa de ponte para a grande mudança. É do vosso conhecimento que são muitos os que apostaram num terceiro memorando, antes do fim de Junho. Esses serão desmentidos uma vez mais. Os memorandos, seja qual for a forma, acabaram no dia 25 de Janeiro.
O que procuramos – e aquilo para que nos preparamos, empregando todas as nossas capacidades – é chegar, com os nossos parceiros, a um acordo mutuamente aceitável, que permita libertar definitivamente o nosso país de uma tutela tão asfixiante como humilhante. Um acordo que tornará socialmente duráveis os nossos compromissos financeiros, permitindo-nos retomar o crescimento, a normalidade e a coesão social.
Estamos a entrar, agora, num período de trabalho construtivo. Ontem, anunciei, no Conselho de Ministros, a entrega dos primeiros projectos de lei para inverter a situação actual. O primeiro projecto diz respeito a medidas que serão tomadas para acorrer à crise humanitária. O segundo diz respeito à regularização das dívidas vencidas ao Estado e a fundos públicos. O terceiro diz respeito à protecção da residência principal e será apresentado na próxima semana, a fim de pôr termo à angústia de centenas de milhares de nossos concidadãos, trabalhadores e reformados, que estão em risco de perder a sua casa. Do mesmo modo, na próxima semana, quinta-feira, dia 5 de Março, apresentaremos o projecto de lei para a reabertura da ERT [radiotelevisão pública]. Ao mesmo tempo, entregaremos uma proposta de criação de uma comissão de inquérito para examinar as razões e as circunstâncias exactas que conduziram o nosso povo a esta desgraça. Estas são as primeiras intervenções parlamentares e legislativas do nosso governo de salvação social. E as nossas reformas legislativas vão prosseguir, até à erradicação completa dos problemas da opacidade da vida pública, da corrupção e conflitos de interesse. Contudo, a obra governamental não pode limitar-se à tarefa legislativa. A partir da próxima semana, começamos uma maratona de reformas a fim de racionalizar a administração pública e facilitar a vida dos cidadãos. Estas primeiras medidas ilustram já os princípios da orientação geral das nossas reformas. Mas, gostaria, também, de falar de uma outra medida crucial, que manifesta, de forma exemplar, a passagem ao período pós-memorandos: decidimos revogar a autorização, para pesquisas e explorações, à mina de Skouries, com o objectivo de defender, da maneira mais eficaz possível, duas grandes prioridades do nosso governo: o ambiente e o interesse público. E a nossa resposta às reacções suscitadas pela nossa decisão é simples e sem equívocos: se o povo nos concedeu a sua confiança, é porque, para nós, os trabalhadores, o desenvolvimento produtivo progressivo, o ambiente e o interesse público, estão acima dos interesses comerciais, por grandes que sejam e importantes as suas redes de influência.

Camaradas,

Face à alteração de circunstâncias, que fazer? O nosso trabalho no governo será determinante para o futuro do país. Mas, o papel do nosso partido é, igualmente, essencial. […] Nós temos necessidade de um partido que vigie e critique a nossa acção, dando prova de responsabilidade, espírito metódico, que julgue, tende em conta todos os parâmetros […] Espírito de equipa, bom senso, adaptabilidade, comprometimento, resistência, pensamento crítico, são as qualidades que vão permitir-nos inscrever a ideia do progresso na consciência colectiva, na história da nossa sociedade e do nosso país. E isso merece esforços e sacrifícios!


28 de Fevereiro de 2015

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 (1)  Ver o significado desta alusão na Wikipedia

Nota do tradutor: Esta tradução foi feita a partir da tradução para francês publicada AQUI  


quarta-feira, 18 de março de 2015


O texto que se segue, recebido por e-mail, explica muito bem o que é o Banco Central Europeu. No dia em que é inaugurada, oficialmente, a nova sede do BCE, que custou 1.300 milhões de euros, parece-nos útil relembrar o papel desta instituição europeia, chefiada por um mafioso do banco Goldman Sachs, Mario Draghi. Este indivíduo foi vice-presidente e director executivo, para a Europa, do Goldman Sachs, entre 2002 e 2005, e um dos responsáveis pela falsificação das contas públicas da Grécia, ao negociar com aquele país um swap para esconder a verdadeira dimensão do défice grego. O Goldman Sachs ganhou, apenas nesta transacção, 600 milhões de euros. Como se vê, o mafioso Draghi continua a encher os cofres dos maiores bancos privados, com a ajuda da restante família, que domina o poder político e financeiro, na Europa. Desta mafia, em Portugal, temos o governador do Banco de Portugal, na lista, para seguir as pisadas do "socialista" Vítor Constâncio, e todo o bando do governo, de onde alguns sairam já com bons prémios e outros(as), descaradamente, se oferecem, como putas baratas.


BCE? EXPLICA-ME COMO SE EU FOSSE MUITO BURRO...




O QUE É O BCE?
- O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

E DONDE VEIO O DINHEIRO DO BCE?
- O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10 dos 27 Estados da UE contribuíram com 30%.

E É MUITO, ESSE DINHEIRO?
- O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

ENTÃO, SE O BCE É O BANCO DESTES ESTADOS PODE EMPRESTAR DINHEIRO A PORTUGAL, OU NÃO? COMO QUALQUER BANCO PODE EMPRESTAR DINHEIRO A UM OU OUTRO DOS SEUS ACCIONISTAS?
- Não, não pode.

PORQUÊ?!
- Porquê? Porque... porque, bem... são as regras.

ENTÃO, A QUEM PODE O BCE EMPRESTAR DINHEIRO?
-A outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.

AH PERCEBO, ENTÂO PORTUGAL, OU A ALEMANHA, QUANDO PRECISA DE DINHEIRO EMPRESTADO NÃO VAI AO BCE, VAI AOS OUTROS BANCOS QUE POR SUA VEZ VÃO AO BCE.
- Pois.

MAS PARA QUÊ COMPLICAR? NÂO ERA MELHOR PORTUGAL OU A GRÉCIA OU A ALEMANHA IREM DIRECTAMENTE AO BCE?
- Bom... sim... quer dizer... em certo sentido... mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

AGORA NÃO PERCEBI!!..
- Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de Maio a Dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

MAS ISSO ASSIM É UM "NEGÓCIO DA CHINA"! SÓ PARA IREM A BRUXELAS BUSCAR O DINHEIRO!
- Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.
ISSO É UM VERDADEIRO ROUBO... COM ESSE DINHEIRO ESCUSAVA-SE ATÉ DE CORTAR NAS PENSÕES, NO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO OU DE NOS TIRAREM PARTE DO 13º MÊS.

- As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos accionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada.

MAS QUEM É QUE MANDA NO BCE E PERMITE UM ESCÂNDALO DESTES?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.

ENTÃO, OS GOVERNOS DÃO O NOSSO DINHEIRO AO BCE PARA ELES EMPRESTAREM AOS BANCOS A 1%, PARA DEPOIS ESTES EMPRESTAREM A 5 E A 7% AOS GOVERNOS QUE SÃO DONOS DO BCE?

- Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós ou à Grécia ou à Irlanda que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6, a 7% ou mais.

ENTÃO NÓS SOMOS OS DONOS DO DINHEIRO E NÃO PODEMOS PEDIR AO NOSSO PRÓPRIO BANCO!...
- Nós, qual nós?! O país, Portugal ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer que ganha 400 ou 600 euros por mês ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa ou de um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês. Não se pode comparar.

MAS, E OS NOSSOS GOVERNOS ACEITAM UMA COISA DESSAS?
- Os nossos Governos... Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos.

MAS ENTÃO ELES NÃO ESTÃO LÁ ELEITOS POR NÓS?
- Em certo sentido, sim, é claro, mas depois... quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta actual crise mundial, a maior de há um século, para cá. Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como os casinos nunca tinham visto nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios. Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

E ONDE O FORAM BUSCAR?
- Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?...

MAS METERAM OS RESPONSÁVEIS NA CADEIA?
- Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram... passados à reforma. Como McDaniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares a que tinha direito.

E ENTÃO COMO É? COMEMOS E CALAMOS?

- Isso já não é comigo, eu só estou a explicar...


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015


Traduzimos o texto que Yanis Varoufakis, o novo Ministro das Finanças grego, colocou no seu blogue, no dia a seguir à vitória do Syriza, É um discurso de quem sabe o que diz e o que fazer, com dignidade e verdadeiro sentido patriótico. Revela, ainda, ser culto, longe dos economistas de mercearia, presidentes de todos os "cidadões".

 
Ontem, a democracia grega revoltou-se contra a morte da luz. A Europa e o mundo devem juntar-se a nós.
Hoje, o povo da Grécia deu um voto de confiança à esperança. Serviu-se das urnas de voto, nesta esplêndida celebração de democracia, para pôr fim a uma crise que se realimenta, traz indignidade à Grécia e nutre as forças mais obscuras da Europa.

O povo da Grécia enviou, hoje, uma mensagem de solidariedade ao Norte, ao Sul, ao Este e ao Oeste do nosso continente. Essa simples mensagem é a de que está na hora de acabar com a crise-privação, a punição e as acusações. Chegou a hora de revitalizar os ideais de liberdade, de racionalidade, do processo democrático e de justiça, no continente que os criou.
A democracia grega escolheu, hoje, não se deixar levar aos poucos para a noite.
A democracia grega decidiu revoltar-se contra a morte da luz.[N.T.]
Acabados de receber o nosso mandato democrático, apelamos ao povo da Europa e, evidentemente, do mundo inteiro, a juntar-se a nós no campo da partilha, da prosperidade sustentável. 
______

[N.T.] Estes dois últimos parágrafos fazem referência a um poema de Dylan Thomas, que pode ser lido e ouvido aqui e aqui.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015


O artigo de Vicenç Navarro foi publicado dois dias antes desta manifestação, em Madrid, convocada pelo Podemos:






 
 
 
 
O MOMENTO É AGORA!



Quem são os extremistas? O caso da Grécia

Por Vicenç Navarro*

A imagem mediática que tem vindo a ser projectada à população, em relação ao que se passa e passará na Grécia, é a de que um partido da extrema-esquerda foi eleito, nesse país, e e que levará a cabo políticas extremistas que desembocarão num desastre económico e financeiro, forçando a sua expulsão do euro. Há, hoje, muitíssimos artigos, nos meios de informação, que apresentam esta visão do que está a acontecer na Grécia.
Tem interesse sublinhar que esta interpretação da realidade grega, assim como os termos que utiliza (tais como definir o partido Syriza como um partido extremista), vêm de um establishment político-mediático, tanto europeu como espanhol, que tem aplicado políticas de cortes da despesa publica e reformas laborais, visando reduzir os salários, causando uma enorme dor e sacrifício à população, muito em particular às classes populares, e provocando uma das recessões económicas mais profundas que a Europa conheceu desde os princípios do século XX. Efectivamente, na Grécia, mais do que recessão, houve uma Grande Depressão, pior do que a sofrida pelos EUA, no início do mesmo século. O PIB desceu nada menos que 25% e os indicadores económicos e fiscais (desde o elevadíssimo desemprego até ao aumento dos suicídios) têm sido um desastre (e não há outra maneira de o definir).
Os partidos políticos que estiveram a impor estas políticas públicas (conhecidas como políticas de austeridade), que careciam de mandato popular (já que não constavam das suas propostas eleitorais), são definidos como partidos “razoáveis”, “moderados”, que estão aplicando o que o conhecimento económico e financeiro (ao qual se referem como científico, chamando-lhe ciências económicas) lhes dita. Um exemplo é o programa da TV3, a televisão pública catalã, conhecido como “Aulas de Economia” (Classes d’Economia), onde o economista mais mediático e promovido pelo governo Mas e os seus meios de informação e persuasão espalha por toda a Catalunha o ideário neoliberal, com o argumento de que está a ensinar ciências económicas, insistindo, ainda hoje, em que a enorme recessão, que a Eurozona está a viver, não tem nada a ver com um grave problema de falta de procura (originada pelas políticas de austeridade), mas com a excessiva intervenção do Estado, que dificulta os investimentos.
Este discurso não é considerado extremista. E também não são definidos como extremistas os trabalhos promovidos por FEDEA, instituição de investigação económica, financiada pela banca privada e pelas maiores empresas do IBEX35, que é apresentada como fonte de informação científica, lógica, razoável, moderada e, naturalmente, carente de extremismos. Todos eles enfatizam a necessidade de aplicar as políticas neoliberais.

Por que se define o Syriza como extremista?

E quando aparece uma força política, o Syriza, que quer parar com estas políticas e reverte-las, chama-se-lhe “extremista de ultra-esquerda”. Como bem assinala o professor Paul Krugman, num recente artigo publicado no The New York Times (26.01.15), o facto de se definir as propostas que o Syriza está a fazer (que, como Krugman indica, são de claro cariz social-democrata, antes de os partidos social-democratas terem deixado de o ser) como medidas extremistas (também definem assim o partido), diz muito da enorme viragem à direita da cultura económica e política do país, sendo isso um indicador de até que ponto a cultura política e económica dos establishment políticos, mediáticos e económicos se tem deslocado para posições autenticamente extremistas, sem nenhuma validade científica, imbuídas de e sustentadas por uma ideologia ultraliberal. Como diz o professor Paul Krugman, o que vimos é o domínio do ultraliberalismo, a ideologia mais extremista que existe no conhecimento económico, financiada pelos interesses financeiros, que dominam o establishment político e mediático europeu e alcança a sua máxima expressão em Espanha.
Hoje, com base na evidência científica, acumulada durante estes anos do enorme dano que estas políticas supuseram para as populações dos países a elas submetidos, pode-se concluir que se trata de políticas profundamente erróneas, que não podem ser apresentadas com o aval científico e que respondem aos interesses particulares (e muito especialmente aos financeiros), em vez de responderem aos interesses gerais. Com base no princípio, tão repetido, de que as políticas públicas que favorecem os interesses da grande banca e grandes corporações são, também, as que melhor beneficiam as classes populares, foram aplicadas estas intervenções estatais, que aumentaram enormemente as desigualdades, prejudicando o bem-estar e qualidade de vida da maioria das classes populares. A evidência disto é esmagadora.

As políticas supostamente extremistas do Syriza

Uma análise pormenorizada das propostas económicas do partido Syriza mostra claramente que o que sugerem é o desenvolvimento das políticas redistributivas, com um incremento da despesa pública (enfatizando o investimento social) e com um aumento dos salários e de assalariados, com o fim de estimular a procura doméstica, paralisada pelas políticas de austeridade. Tudo isto financiado com medidas fiscais, que incrementem a progressividade fiscal e corrijam a abusiva fraude fiscal. E, como é lógico, renegociar uma dívida que é artificialmente alta, devido ao sistema financeiro desenvolvido na Eurozona, centrado no Banco Central Europeu, que, em vez de ser um banco central (que proteja os Estados face à especulação financeira, comprando dívida pública), é um lóbi da banca. Este sistema é profundamente injusto e deve ser mudado.
Qualquer analista da realidade económica da Grécia, que não esteja imbuído do dogma neoliberal, pode ver que estas políticas são as intervenções de que a Grécia necessita. E, a estas políticas – de claro recorte social-democrata – o establishment económico, financeiro, político e mediático europeu chama políticas “extremistas”. Isto mostra o grau de viragem à direita das culturas políticas e mediáticas dominantes.
Algo parecido aconteceu com o documento que o Professor Juan Torres e eu preparámos, a pedido do novo partido Podemos, com propostas que este partido, em caso de governar, deveria aplicar para sair da crise. A mesma agressividade apareceu nos círculos financeiros e económicos e nos meios de informação e persuasão próximos desses interesses. E, como seria de esperar, o presidente do maior lóbi da banca alemã, o banco central alemão Bundesbank, definiu-o como um documento perigosíssimo, que destruiria a economia espanhola, mensagem reproduzida em todos os maiores foros económicos do país, incluindo o jornal El País.
O desastre ao qual as políticas neoliberais levaram não só os países periféricos, mas um número crescente de países da Eurozona, gerou um número crescente de protestos e desacordos com as ditas políticas. Na realidade, a rejeição das políticas de austeridade apareceu inclusive em círculos que antes as tinham promovido, tal como o FMI. E a resposta inicial dos partidos governantes, em França e Itália, à vitória do Syriza e às suas propostas, não foram de rejeição, mas de simpatia. Hoje, o governo Merkel e o seu maior aliado, o governo Rajoy, estão claramente à defesa. O seu dogma está a desmoronar-se. A derrota do seu outro grande aliado, o partido conservador e neoliberal grego Nova Democracia, significou um passo muito ameaçador para eles, pois abre toda uma série de possibilidades que debilitarão a sua posição. Inclusive o famoso e justo pedido de reestruturação da dívida grega é mais que possível, já que a maioria dessa dívida está nas mãos de instituições oficiais (e não dos chamados mercados financeiros), que têm capacidade de decisão e responsabilidade quanto ao preço da dita dívida.
Esta nova etapa requererá grandes mobilizações sociais, tanto dentro da Grécia, como no resto da Europa. E daí a enorme importância de que a manifestação do dia 31 de Janeiro una todas as forças que recusam estas políticas neoliberais, transformando-se numa das maiores manifestações que ocorram na Europa. Assim seria de desejar.

 
* Catedrático de Ciências Políticas e Sociais, na Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona. Foi Catedrático de Economia Aplicada, na Universidade de Barcelona

Original deste artigo encontra-se em http://www.vnavarro.org/?p=11736

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


Primeiras medidas do novo governo grego:

-       Subir o salário mínimo de 586 euros brutos para 751 euros brutos (quantia anterior aos cortes). 

-       Repor a negociação colectiva com os sindicatos. 

-       Devolver os postos de trabalho a 3.500 funcionários públicos despedidos ilegalmente. 

-       Voltar a contratar as empregadas da limpeza do Ministério das Finanças, acampadas à porta do ministério e que se tornaram um símbolo de luta e resistência.

-       Dar a nacionalidade grega aos filhos de emigrantes nascidos na Grécia.

-       Abolição do pagamento de um euro por receita médica. 

-       Abolição da taxa (entre 3 e 5 euros) por cada consulta médica. 

-       Restaurar o acesso universal ao sistema público de saúde aos 3 milhões de gregos que tinham sido postos fora deste sistema e que, agora, tinham apenas acesso às urgências. 

-       Paralisar a privatização do Porto do Pireu. Estava previsto que o governo pusesse no mercado 67% da propriedade estatal deste porto. O principal candidato à compra era o grupo chinês COSCO, que já opera os terminais de carga II e III, através de uma concessão de 30 anos. 

-       Paralisar a privatização da Companhia Nacional de Energia, de que 51% ainda está nas mãos do Estado.

-       Rever todas as privatizações “para que não se faça nenhuma que vá contra o interese geral”. Numerosas privatizações estavam previstas: o Porto de Tesalónica, o operador ferroviário Trainose, o de infraestruturas rodoviárias ROSCO, etc.